Vinícius de Moraes - O Poeta
terça-feira, 14 de outubro de 2008 por Maria Clara
Poeta essencialmente lírico, “O Poetinha” (como ficou conhecido) notabilizou-se pelos seus sonetos, forma poética que se tornou quase associada ao seu nome. Conhecido como um boêmio inveterado, fumante e apreciador do uísque, era também conhecido por ser um grande conquistador. O Poetinha casou-se por nove vezes ao longo de sua vida.

Filho de Clodoaldo Pereira da Silva Morais (funcionário da Prefeitura, poeta e violonista amador) e Lidia Cruz (pianista amadora), Marcus Vinícius da Cruz de Melo Moraes, nasceu no dia 19 de outubro de 1913 no bairro da Gávea, na então capital brasileira, em 1916 mudou-se com a família para Botafogo, onde estudou na Escola Primária Afrânio Peixoto - onde escreveu seus primeiros versos.
Em 1922, a família de Vinícius mudou-se para a Ilha do Governador, mas ele permaneceu com o avô, a fim de terminar o curso primário. Em finais de semana ia para casa dos pais, durante os períodos de férias, os pais de Vinicius costumavam receber em casa a presença de Henrique de Melo Morais, tio de Vinicius, e do compositor Bororó.(“Da Cor do Pecado”).
Vinícius de Moraes ingressou no Colégio Santo Inácio em 1924,em Botafogo, onde passou a cantar no coro e começou a montar pequenas peças de teatro. Três anos depois, tornou-se amigo dos irmãos Paulo e Haroldo Tapajós, com quem começou a fazer suas primeiras composições e a se apresentar em festas de amigos. “Comecei a compor com eles. Fizemos várias músicas, das quais duas tiveram muito sucesso”. Uma delas , o fox-trote “Loura ou Morena”, foi feita em 1928, em parceria com Haroldo e gravada em 1932, pela dupla vocal “Irmãos Tapajos”. Teve um sucesso considerável, rendendo-lhe a “astronômica” (como lhe pareceu na época) quantia de um conto de réis, de direitos autorais. A outra foi a “Canção da Noite” (Berceuse), com Paulo.

Vinícius anos 30
Em 1929, concluiu o ginásio e sua família voltou a morar na Gávea. Nesse mesmo ano, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, atual Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que até 1937 funcionou no Casarão do Catete. Na chamada “Faculdade do Catete“, conheceu e tornou-se amigo do romancista Otavio Faria, que o incentivou na vocação literária.
Vinícius de Moraes graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933, ano que publicou seu primeiro livro “O Caminho Para a Distância”, pela Schmidt Editora, edição recolhida por ele. Nessa época era amigo de Manuel Bandeira, Oswald e Mário de Andrade. Neste ano também compôs com Haroldo Tapajós a Valsa “Canção para Alguém”.

Vinícius Formatura de Direito
Em 1935, seu livro “Forma e Exegese” recebeu o prêmio de poesia da Sociedade Felipe d’Oliveira: “Eu era muito moço ainda, tinha 21 para 22 anos e aquilo me subiu um pouco à cabeça. Fiquei me achando uma espécie de gênio nacional. Depois verifiquei que não era nada disso. Mas, talvez por ser conhecido, e com livros publicados, dexei de lado a composição da música popular por muito tempo. Embora, por uma sensibilidade minha, aquilo tivesse ficado subconscientemente guardado dentro de mim.”
Em 1936, publicou “Ariana, a Mulher”, e no mesmo ano empregou-se como censor cinematográfico, emprego que abandonou em 1938, por haver ganho uma bolsa do Conselho Britânico: “Mas eu não censurava nada…eu brigava com uma senhora que trabalhava lá comigo porque de vez em quando ela cismava de censurar uma pequena coisa, uma besteira qualquer. Eu brigava sempre para que os filmes fossem liberados.”
E lá se foi Vinicius estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Nesse ano publicou “Novos Poemas”. Trabalha como assistente do programa brasileiro da BBC. Conhece na casa de Augusto Frederico Schimidt, o poeta e músico Jayme Ovalle, de quem se torna um dos maiores amigos. “Pouco antes, conheci minha primeira mulher, Tati, com quem casei por procuração, aos 24 anos. Ela morava em Londres, e para vê-la, tinha que pular janelas.”
O início da Segunda Guerra Mundial fez com que retornasse ao Brasil: “eu estava em Paris quando a guerra estorou. Ai, começamos a viajar de volta para o Brasil. Todo mundo estava apavorado com o avanço das tropas alemãs. Em Lisboa encontro Oswald de Andrade, ficamos um mês e meio à espera de um navio para poder voltar, e voltamos no “Angola”. Viagem chata, com luzes apagadas por causa dos submarinos. Quando chegamos, minha mulher já estava grávida e eu precisava pensar num trabalho para aguentar a barra.”

Vinícius em sua casa
Certa vez, por volta de 1940, estava Vinícius em Niterói, na casa de seu então concunhado Carlos Leão. Era madrugada e ele entretia-se lendo o mito de “Orfeu” – músico, cantor e poeta, tido como o inventor da cítara. De repente, uma batucada no Morro do Galvão chamou-lhe a atenção. As idéias se fundiram e surgiu um Orfeu do Morro (Orfeu Negro, Orfeu da Conceição, Orfeu do Carnaval), sambista de grande beleza interior, desejado pelas mulheres, e por isso, invejado pelos outros homens do morro. Entusiasmado, escreveu todo o primeiro ato da peça.
Em 1941, já no Brasil empregou-se como crítico de cinema no jornal “A Manhã”. Tornou-se também colaborador da revista “Clima” dirigida pelo crítico literáio Antonio Candido. Conseguiu um cargo burocráticono Instituto dos Bancários e incetivado pela mulher, e por seus amigos, Lauro Ecorel e Jaime de Azevedo Rodrigues, começou a se preparar para prestar exame no Itamarati, sendo aprovado m 1943, ano em que publicou “Cinco Elegias”, marco de uma nova fase em poesia.
Em 1946, após dois anos de estágio, assumiu o primeiro posto diplomático como vice-cônsul em Los Angeles, EUA, e nesse mesmo ano publicou “Poemas, Sonetos e Baladas”. Escreve também o segundo ato de “Orfeu”. O seu Orfeu não ia ao inferno tradicional em busca de sua Eurídice. O carnaval carioca era o seu inferno, e Orfeu buscava Eurídice em todas as mulheres.
Em 1947, com Alex Viany, lançou a revista “Filme”. Em 1949 publicou “Pátria Minha”. Com a morte do pai, em 1950, Vinicius de Moraes volta ao Brasil e perde o terceiro ato do seu “Orfeu”. Durante dezenove anos a poesia é que falou mais alto, somente em 1952 em parceria com Antonio Maria compoem “Quando Tu Passas Por Mim”, gravada por Doris Monteiro.

Vinicius Embaixador
Em 1953, seguiu para Paris, como segundo secretário da Embaixada Brasileira, atuando em Paris e Roma, onde costumava realizar animados encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda. Reescreve o terceiro ato do “Orfeu”, com o incentivo do poeta João Cabral de Melo Neto, que o estimulou a inscrevê-la no Concurso de IV Centenário de São Paulo.“Fiquei animado e me lembro que acabei de bater à máquina o final da peça no trem que me levou a São Paulo, nas vésperas do encerramento.” Premiada, a peça foi publicada, em 1954, na revista “Anhembi”.
Em Paris, fez uma sinopse da peça para um filme, a pedido do produtor cinematográfico, Sacha Gordini. Em fins de 1955, vieram ao Brasil em busca de financiamento para o filme. Mas ninguém dava lá muita importância a esse papo de filme nacional… Assim, a produção ficou sendo francesa mesmo. Ainda em 55, Vinícius vai para Paris como Segundo Secretário da Embaixada Brasileira
Neste mesmo ano também publicou a sua “Antologia Poética” e Aracy de Almeida gravou “Quando Tu Passas Por Mim”, primeiro samba de sua autoria. Escrita com Antônio Maria, a canção foi dedicado à esposa Tati de Moraes e marcava também o fim do seu casamento. Tati, a primeira, única com quem casou no civil, é a inspiradora dos famosos versos “Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinitol enquanto dure”. Deixou-a para viver com Regina Pederneiras. O romance durou um ano, depois do que ele voltou com Tati para deixá-la, definitivamente, em 1956 e casar com Lila, então com 19 anos, irmã de Ronaldo Bôscoli.
No fim de 1956, volta ao Brasil em gozo de licença-prêmio. Nasce sua terceira filha, Luciana. Colabora no quinzenário “Para Todos” a convite de seu amigo Jorge Amado, em cujo primeiro número publica o poema “O Operário em Construção”.
Com a publicidade dada, no Brasil, à idéia do filme de “Orfeu”, fez com que surgisse alguém interessado na montagem da peça, neste ano Vinicius montou a peça Orfeu da Conceição. Vinicius reuniu um grupo para a execução da peça: o diretor era Léo Justi, Haroldo Costa era “Orfeu”, Léa Garcia era “Mira”, Abdias Nascimento era “Aristeu”, Ciro Monteiro era “Apolo” e Dirce Paiva era “Eurídice”; os cenários eram de Oscar Niemeyer. Vinicius começou a procurar alguém que fizesse a música da peça. Falou com Vadico – parceiro de Noel Rosa – excelente pianista, mas um cara muito tímido que ficou assustado com a empreitada. Foi então que Lúcio Rangel e Haroldo Barbosa lhe indicaram um rapaz novo, que havia largado a faculdade de arquitetura e ganhava a vida tocando nos inferninhos de Copacabana: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, no Bar Gouveia (em frente à Academia Brasileira de Letras). Desse encontro, nasceria uma das mais fecundas parcerias da música brasileira, que a marcaria definitivamente.“Ai eu dei a peça para ele ler e uns quinze dias depos me chamou para escutar um tema. Fui à casa dele, na rua Nascimento Silva 107, e ele me mostrou a melodia de “Se Todos Fossem Iguais a Você”. Fiquei empolgado e fiz a letra na hora.”

Vinicius e Tom Jobim
Os dois compuseram a trilha sonora da peça, que incluia “Lamento no Morro”, “Um Nome de Mulher”, “Mulher Sempre Mulher” e “Eu e Meu Amor, e a valsa “Eurídice”, esta, feita em Paris, em 1953, chamava-se “Susana”. “Esta valsa era dedicada a minha filha; depois eu tive que pedir emprestada a ela como tema da peça Orfeu da Conceição, coisa que ela não perdoa.”
As musicas foram lançadas em disco pelo cantor Roberto Paiva e o violonista Luiz Bonfá e Orquestra. No filme incluiria também “A Felicidade” e “O Nosso Amor”.
A peça estreou no dia 25 de Setembro de 1956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. “Com grande amor e entusiasmo de todo mundo. E foi um acontecimento porque era a primeira vez que um negro pisava no palco do Teatro Municipal.”
Além destas canções, a dupla Vinicius e Tom compuseram, entre outros clássicos, “A Felicidade”, “Chega de Saudade”, “Eu Sei Que Vou Te Amar”, “Garota de Ipanema”, “Insensatez”‘, entre outras belas canções.
Em 1957 é transferido da Embaixada em Paris para a Delegação do Brasil junto à UNESCO.“Um dia em Paris, acordei triste e fiz um poema, depois fiz a melodia. De volta ao Brasil, encontrei-me com Aracy de Almeida, no Hotel Comodoro, e mostrei-lhe a música. Araca ficou vidrada na letra. Mostrou-a ao Adoniran Barbosa, pedindo que refizesse a melodia. Ficou muito bom”.
“Bom Dia Tristeza” foi gravada por Aracy de Almeida, pela Gravadora Continental neste mesmo ano. Também foram gravadas as músicas: “Se Todos Fossem Iguais a Você” (c/ Tom Jobim), por Tito Madi, “Eu Não Existo Sem Você”, por Bill Farr, e “Serenata do Adeus”, por Agnaldo Rayol. No final de 57 é transferido para Montevidéu, Uruguai, regressando, em trânsito, ao Brasil. Publica a primeira edição de seu “Livro de Sonetos”, em edição de Livros de Portugal.
No período de 1957 a 1958, o diretor francês Marcel Camus filmou, no Rio de Janeiro, “Orfeu do Carnaval”, que recebeu o nome de “Orfeu Negro”. Fazia parte do elenco: Breno Mello como Orfeu, Marpessa Dawn como Eurídice, Lourdes de Oliveira como Mira, Léa Garcia como Serafina, Ademar da Silva como a Morte, Alexandro Constantino como Hermes, Waldemar de Souza como Chico, Jorge dos Santos como Benedito, Aurino Cassiano como Zeca.
Em 1958 sofre um grave acidente de automóvel. Casa-se com Maria Lúcia Proença. Parte para Montevidéu. Sai o LP “Canção do Amor Demais”, de músicas suas com Antônio Carlos Jobim, cantadas por Elizete Cardoso. No disco ouve-se, pela primeira vez, a batida da Bossa Nova, no violão de João Gilberto, que acompanha a cantora em algumas faixas, entre as quais o samba “Chega de Saudade”, considerado o marco inicial do movimento.
Em 1959, Lueli Figueiró gravou “A Felicidade” e “O Nosso Amor”, ambas feitas para a trilha sonora do filme “Orfeu do Carnaval“. “A Felicidade” foi também gravada, no mesmo ano, por Severino Araújo e Sua Orquestra e por Chiquinho do Acordeom. Sai o LP “Por Toda Minha Vida”, de canções suas com Jobim, pela cantora Lenita Bruno. O filme “Orfeu Negro” ganha a “Palme d’Or” do Festival de Cannes e o “Oscar”, de Hollywood, como melhor filme estrangeiro do ano. Aparece o seu livro “Novos Poemas II”. Casa-se sua filha Susana.

Vinícius e Grande Otelo
Fonte: Home de Vinicius de Moraes
Wikipédia Livre - Vinicius de Moraes
Dicionário Cravo Albin - Vinicius de Moraes
Revista Violão e Guitarra - Especial Vinicius - 1979

