TOM JOBIM - Compositor, Violonista…
sábado, 13 de dezembro de 2008 por Maria Clara

No dia em que seu pupilo completou 28 anos, Gnatalli o presenteou com um convite tentador: participar do prestigioso programa da Rádio Nacional, “Quando os Maestros se Encontram”. Tom apresentou-se regendo uma peça sinfônica de sua autoria, “Lenda”, dedicada à memória do pai e que nunca seria gravada. Em maio, a primeira parceria com Dolores Duran, “Se É Por Falta de Adeus”, entrou para o repertório de Dóris Monteiro. Apesar de assoberbado por encomendas, fez arranjos para Dora Lopes, Juanita Cavalcante, Edu da Gaita, Elizete Cardoso, Orlando Silva, Dalva de Oliveira e participou como pianista de um LP de Luiz Bonfá, ainda encontrou tempo para nova mudança de endereço, agora para o apartamento 201 do mítico prédio da Rua Nascimento Silva, 107, em Ipanema. No fim do ano, a recompensa: na lista dos melhores arranjadores da temporada, escolhidos pelo crítico Ary Vasconcellos, Tom dividiu a segunda colocação com Pixinguinha e Renato de Oliveira.
Se é por falta de Adeus
De tanto insistir, Harold Morris, o inglês que dirigia a Odeon, acabou convencendo Tom a aceitar o cargo de diretor artístico da gravadora, a maior do país naquela época. Não demorou a confirmar a desconfiança de que as novas funções prejudicariam suas atividades musicais. Morris implorou para que ele ficasse, Tom, contudo, preferiu no momento certo passar o bastão a um brasileiro recém-chegado dos EUA, Aloysio de Oliveira. Tamanho foi seu alívio ao deixar a Odeon que, ao ser apresentado ao substituto, não conteve o desabafo: “Ainda bem que você chegou”. Mais tarde, em casa, extravasou seu desafogo num poema.
Tom já estaria no lucro se só tivesse feito amizade com Aloysio de Oliveira naquele ano, mas a generosidade dos deuses lhe reservara outra preciosa aproximação para 1956. Ele e Vinícius de Moraes já se conheciam de vista há algum tempo, pois ambos freqüentavam o Clube da Chave, onde Tom vez por outra apresentava-se ao piano. Vinícius também já o vira tocar na boate Tudo Azul. O encontro definitivo, no Bar Villarino, no centro do Rio, foi um presente de Lúcio Rangel, velho amigo do poeta. Vinícius procurava alguém para compor a música de uma ópera negra carioca, intitulada “Orfeu da Conceição”, transposição do mito de Orfeu para uma favela, e foi pedir sugestões a Rangel, pois o parceiro em vista, Vadico, desistira da empreitada por não se julgar “à altura” do projeto. Tom topou na hora criar as músicas da tragédia, nascia ali uma das amizades mais instantâneas, fraternais, prolíficas e duradouras da história da música popular brasileira.

No apartamento da Nascimento Silva, mais tarde celebrizado por Toquinho e Vinícius no samba “Carta a Tom 74”, Tom e Vinícius iniciaram logo a faina de “Orfeu da Conceição”. Os dois ou três primeiros sambas foram descartados; eram ruins. Tão logo se entrosaram, saiu uma obra-prima, “Se Todos Fossem Iguais a Você”. E, em seguida, “Mulher Sempre Mulher”, “Um Nome de Mulher”, “Eu e Meu Amor” e “Lamento do Morro” . Após três meses de ensaios, a peça, com Haroldo Costa no papel de Orfeu, estreou no Teatro Municipal do Rio, em 25 de setembro de 1956, com lotação esgotada, permanecendo em cartaz até o dia 30. Raras vezes uma encenação brasileira contara com uma equipe tão eclética e talentosa. A imprensa reagiu com entusiasmo. Em 1º de outubro, por iniciativa de Aloysio de Oliveira, a Odeon lançou um LP de dez polegadas com a trilha musical do espetáculo, com Roberto Paiva emprestando sua voz a Orfeu. Em novembro, “Orfeu da Conceição” voltaria à cena no Teatro República, durante um mês, a preços populares.
No ano seguinte 1957, numa produção do francês Sacha Gordine, dirigida por Marcel Camus, a partir de um roteiro assinado por Jacques Viot e repudiado por Vinícius, a peça começaria ser filmada no Rio, com o título de “Orphée Noir” (Orfeu Negro) e novo elenco. Com temas adicionais de Bonfá e Antonio Maria, arrebataria o júri do Festival de Cannes de 1959, que lhe daria a Palma de Ouro, e os membros da Academia de Hollywood, que o elegeram o “melhor filme estrangeiro” daquele ano. Vinícius detestou não apenas o filme, mas sobretudo a maneira como os franceses se apossaram das músicas da peça.

Antes de decepcionar-se com “Orfeu Negro”, Tom foi convidado pelo Selo Festa para musicar a versão em disco de “O Pequeno Príncipe”, de Antoine du Saint-Exupéry, estrelado por Paulo Autran. Estreou na televisão, dividindo a batuta do programa semanal “Noite de Gala”, da TV Rio, com o Maestro Osvaldo Borba, ganhou o prêmio de melhor compositor, da Prefeitura do então Distrito Federal, e viu nascer sua filha Elizabeth, no dia 26 de agosto.
Corria ainda o ano de 1957 quando reencontrou um conhecido baiano que há muito não via, pois ele trocara o Rio por Porto Alegre, retornando a Salvador. Agora estava de volta ao Rio. O baiano era João Gilberto. Chegou mostrando duas composições inéditas: “Bim-Bom” e “Oba-lá-lá”. Tom nem prestou atenção nas letras. Impressionado com a batida diferente do violão do João, quis saber onde ele aprendera a tocar daquele jeito. “Tirei dos requebros das lavadeiras de Juazeiro”, respondeu o baiano. Era por aquela batida que a Bossa Nova estava esperando para poder nascer.

O mesmo Villarino onde se formara a dupla Tom & Vinícius abrigaria, em 1958, outro encontro histórico, envolvendo a dupla e Elizeth Cardoso. Daquela vez o padrinho foi Irineu Garcia, idealizador do Selo Festa. Num complicado arranjo, que envolveu os irmãos Vitale, donos de uma das maiores editoras de música do país, e a gravadora Copacabana, que tinha Elizete Cardoso sob contrato, Garcia conseguiu que a cantora, a princípio arredia à idéia, aceitasse gravar um LP só com temas de Tom & Vinícius e uma roupagem orquestral altamente sofisticada. Tom escalou um escrete de instrumentistas, usou trompa, oboé, até clarone, e fez questão de incluir João Gilberto e sua batida nas faixas “Chega de Saudade” e “Outra Vez”. Gravado no estúdio da Columbia, “Canção do Amor Demais” foi lançado na primeira semana de julho e teria uma de suas faixas “Eu Não Existo Sem Você” aproveitada numa cena de festa do filme “Pista de Grama”.
Meses depois, mais duas cantoras gravam LPs só com músicas de Tom: Lenita Bruno (“Por Toda Minha Vida”, espécie de versão erudita de “Canção do Amor Demais” , com arranjos de Leo Peracchi) e Silvinha Telles (“Amor de Gente Moça”, com arranjos de Tom e Lindolfo Gaya). Nenhuma delas, porém, causou o mesmo impacto do disco “Chega de Saudade”, com João Gilberto, que Tom convencera Aloysio a gravar na Odeon. Distribuído às lojas em março, marcou o lançamento oficial da Bossa Nova, até porque dele fazia parte o samba-manifesto “Desafinado”. Meses depois, num programa de televisão, o exigente Ary Barroso, que no início torcia o nariz para a Bossa Nova, não se conteve e sentenciou: “Tom Jobim é, disparado, o melhor de todos os novos compositores brasileiros”.
Tom e Silvinha Telles

Bibliografia: Site Oficial
Dicionário Cravo Albin
Wikipédia Livre
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