TOM JOBIM - Arranjador, Cantor, Compositor, Maestro, Pianista e Violonista.
segunda-feira, 20 de abril de 2009 por Maria Clara

Para celebrar o jubileu de prata da gravação de Astrud de “Garota de Ipanema”, montou-se no Carnegie Hall uma grande festa na noite de 15 de março de 1989, com a presença de seu autor. Em 25 anos, “Garota de Ipanema” ultrapassara as 3 milhões de execuções em emissoras de rádio e televisão, fazendo de Tom o segundo autor estrangeiro mais executado nos Estados Unidos.
Apesar de três grandes perdas afetivas naquele período (Vinicius, em julho de 1980, D. Nilza, em novembro de 1989, e tio Marcelo algumas semanas depois), a década de 80 fechou de forma auspiciosa para Tom Jobim. A de 90 seria dedicada, em grande parte, a apresentações em público no Brasil e turnês pelo mundo. Todos queriam ouvir e ver de perto o Michelangelo da Bossa Nova.
Janeiro de 1990 começou, para ele, com um show em homenagem a Vinicius, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, seguido de outro, com Milton Nascimento e Chico Buarque, marcando a inauguração da Universidade Livre da Música, em São Paulo, para a qual Tom foi nomeado reitor e, depois, Presidente de seu Conselho Diretor.

Quando, nos primeiros dias de fevereiro, lançaram no Brasil o disco “Família Jobim”, ele já estava de volta à Nova York, onde ficaria quatro meses, só retornando para participar do Festival de Inverno de Campos de Jordão, no interior de São Paulo, e num espetáculo montado por Roberto de Oliveira, no Memorial da América Latina, na capital paulista.
Em novembro, dividiu com Caetano Veloso o palco, os aplausos e o prêmio Tenco do Festival de San Remo, na Itália. Convidado pelo compositor Sammy Cahn, ingressou no fechadíssimo Hall of Fame da música popular americana, ao lado de Cole Porter, Irving Berlin, os irmãos George e Ira Gershwin e o francês Michel Legrand. De volta ao Rio, em dezembro, apresentou-se no Scala, do Rio, onde oficialmente foram lançados os três volumes do Songbook editado pela Lumiar, de Almir Chediak.
Nascido no dia em que São Paulo também faz anos, Tom aceitou de bom grado o convite de Roberto de Oliveira para estrelar um show no Ginásio Ibirapuera, em 25 de janeiro de 1991, afinal assistido por 28 mil pessoas. Para que os cariocas não ficassem com ciúmes, acertou com a prefeitura do Rio um espetáculo pelos 426 anos da cidade, em 1º de março, na ponta do Arpoador, praia de sua infância.

Algumas semanas mais tarde, subiria outra vez ao palco do Carnegie Hall para participar de um encontro musical em prol da Fundação Mata Virgem, organização não-governamental criada por Sting.
No segundo semestre, ao longo do qual compôs o fox “Querida” para a telenovela de Gilberto Braga, “O Dono do Mundo”, Tom só faria shows no Brasil: no Canecão (em junho), no Teatro Guararapes, de Recife (em julho), no Rio Centro (com a família Caymmi) e na quadra da Mangueira, para arrecadar fundos para o próximo desfile carnavalesco da escola.
Tom tinha um interesse especial no próximo desfile da Mangueira. Afinal de contas, ele era o tema de seu samba-enredo, “Se Todos Fossem Iguais a Você”. Entusiasmado com a homenagem (“Foi como se tivesse conquistado o Prêmio Nobel da Paz”), retribuiu com um samba, “Piano na Mangueira”, composto de parceria com Chico Buarque.
Novas emoções em público o esperavam nos meses que se seguiram ao desfile no Sambódromo: o show de abertura da Exposição Internacional de Sevilha, na Espanha, outro, para 5 mil pessoas, no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, o grand finale da Rio Eco-92, no estádio de remo da Lagoa Rodrigo de Freitas, e um espetáculo em torno do músico belga Toots Thielemans em Los Angeles.
Culminando, em dezembro, com um reencontro de Tom e João Gilberto, no palco do Teatro Municipal do Rio e do Palace, em São Paulo, para comemorar os 30 anos do primeiro concerto de bossa nova no Carnegie Hall, que se transformou no especial de fim de ano da TV Globo, dirigido por Walter Salles Jr. e Boninho.
Outro especial para a televisão o esperava no início do ano seguinte: “Tom & Milton”, produzido para a Bandeirantes, com Milton Nascimento. As câmeras não o deixavam em paz.
Nos últimos dias de janeiro, participara de um documentário de Rodolfo (Dodô) Brandão com mais três ilustres Antonios: o crítico literário Antonio Candido, o escritor Antônio Callado e o lexicógrafo e acadêmico Antônio Houaiss — justamente intitulado “Três Antônios e Um Jobim”. Em favor de Callado, a quem muito admirava, desistiria de concorrer, oito meses depois, à cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras, que pertencera a Austregésilo de Athayde. E a ABL passou a ter, pelo menos, dois Antônios (Houaiss e Callado) e nenhum Jobim. Seu único silogeu continuou sendo a Academia Nacional de Música Popular Americana, a que pertencia desde 1990.
Com um tributo à sua obra, no Free Jazz Festival, de que participaram Herbie Hancock, Shirley Horn, Ron Carter, Joe Henderson, Gonzalo Rubalcaba, Jon Hendricks, Gal Costa e Oscar Castro Neves, e um novo disco, Tom encerrou a temporada de 1993. O novo disco, “Antonio Brasileiro”, com participações especiais de Dorival Caymmi e Sting, também seria o último de sua carreira.
Parecia mesmo uma despedida, com a presença recorde de familiares: além dos habituais (Ana, Paulo e Beth), o neto Daniel e a filha Maria Luíza, de sete anos, cantando com o pai “Samba Para Maria Luiza”. O disco só seria lançado em novembro de 1994. Até lá, Tom faria mais três shows e entraria apenas uma vez num estúdio de gravação.
Em duas noites seguidas de abril, reapareceu no Carnegie Hall: na primeira, para comemorar os 50 anos da “Verve”, na companhia de Pat Metheny e do pianista Herbie Hancock, Joe Henderson, Charles Haden e Al Foster; na segunda, para promover a Rainforest Foundation, ao lado de Sting, Elton John e Luciano Pavarotti.
Em maio, daria, em Jerusalém, seu último espetáculo, passando os quatro meses seguintes no Rio onde, onde preferiu gravar a faixa “Fly Me To the Moon” que lhe coube no segundo disco de duetos de Frank Sinatra, “Duets II”. Lançou o último trabalho de sua carreira: o CD “Antônio Brasileiro”, pelo qual recebeu os Prêmios Sharp de Melhor Disco MPB. O CD foi, também, contemplado com o Prêmio Grammy, na categoria Best Latin Jazz Performance. Ainda em 1994, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro concedeu-lhe a Medalha Pedro Ernesto.

Em 15 de setembro, três dias após gravar sua parte no dueto com Sinatra, viajou até Nova York para submeter-se a uma angioplastia e avaliar o grau de comprometimento de seu sistema circulatório. Por motivos de saúde, cancelou uma gravação que agendara com Joe Henderson. Receosa de não conseguir sua presença no lançamento de um projeto que reunia um livro sobre a Mata Atlântica, com texto de Tom e 50 fotos de Ana Jobim, e um vídeo, “Mata Atlântica—Visão do Paraíso”, produzido por Walter Salles Jr. e dirigido por Flávio Tambellini, a editora Index adiou tudo para junho do ano seguinte.
Num dos vários exames a que Tom se submeteu, detectaram um tumor maligno em sua bexiga—e uma cirurgia foi marcada para o dia 6 de dezembro, no Mount Sinai Medical Center. No dia 8, enquanto convalescia da cirurgia, teve uma parada cardíaca, às 8h. A segunda, duas horas depois, provocada por uma embolia pulmonar, lhe seria fatal.
Seu corpo desembarcou no Rio no dia 9 e foi velado no Jardim Botânico, dali seguindo para o cemitério de São João Batista, após desfilar em cortejo pela cidade que ele tanto amou e cantou em suas canções.
“A morte de Tom Jobim não foi apenas a queda de uma árvore, foi a derrubada de uma floresta”, escreveu Arnaldo Jabor, resumindo à perfeição um sentimento universal.
É difícil escolher os mais significativos entre os mais de 50 discos de que participou, como intérprete ou arranjador. Todos eles têm algo de inovador, de diferente e especial.
Biografias foram lançadas, entre elas Antônio Carlos Jobim, um Homem Iluminado, de sua irmã Helena Jobim, Antônio Carlos Jobim - Uma Biografia, de Sérgio Cabral, e Tons sobre Tom, de Márcia Cezimbra, Tárik de Souza e Tessy Callado.
O selo Revivendo, de Curitiba (PR), lançou o CD “Meus primeiros passos e compassos”, contendo as primeiras gravações de suas músicas.
Inexplicavelmente, a genialidade de Tom Jobim continua sempre mais reconhecida nos palcos internacionais que entre os brasileiros, que estão em melhores condições de apreciar a beleza de suas canções, por exemplo no que se refere à concatenação melodia e letra. Como traduzir “Caingá candeia, é o Matita Pereira(…)” “Passarinho na mão, pedra de atiradeira(…)” da canção “Águas de Março”?
Em 2000, foi lançada a caixa “Raros Compassos” (Revivendo), contendo três CDs com músicas do início de sua carreira, interpretadas por vários artistas. Nesse mesmo ano, foi lançado o CD “Tom Canta Vinicius”, com a gravação ao vivo do show realizado no Centro Cultural Banco do Brasil (RJ), em janeiro de 1990. A cantora Gal Costa lançou, ainda, um CD interpretando suas composições, projeto que idealizou quando o maestro ainda vivia.
Diversas homenagens póstumas foram realizadas, como a polêmica mudança do nome da Avenida Vieira Souto, situada em Ipanema (RJ), para Avenida Tom Jobim. Com isso se criaria a esquina Tom Jobim com Vinicius de Moraes, antiga Rua Montenegro, onde situava-se o Bar do Veloso, hoje Garota de Ipanema, muito freqüentado por Tom e Vinicius e onde nasceu a inspiração para compor “Garota de Ipanema”. As placas chegaram a ser trocadas, mas a família Vieira Souto apelou para a justiça e a troca foi desfeita. Mais tarde, o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro passou a se chamar Aeroporto Internacional Maestro Antônio Carlos Jobim, por pressão junto ao Congresso Nacional de uma comissão de notáveis, formada por Chico Buarque, Oscar Niemeyer, João Ubaldo Ribeiro, Antonio Candido, Antonio Houaiss e Edu Lobo, criada e pessoalmente coordenada pelo crítico Ricardo Cravo Albin. Foi criado o Parque Tom Jobim, na Lagoa Rodrigo de Freitas e lançada a caixa “Tom Jobim - inédito”, contendo dois CDs.
E ainda em 2000, foi lançada a edição de luxo do “Cancioneiro Jobim”, contendo partituras de 42 de suas composições, textos biográficos, fotos e reproduções de manuscritos. Esgotada a primeira edição, a publicação ganhou novo formato, dividido em dois volumes, um contendo texto biográfico e imagens e o outro contendo as partituras.
Em 2001, foi lançado o “Cancioneiro Jobim - obras completas”, reunindo partituras e letras de todas as músicas do maestro divididas em 5 volumes, com ilustração de Elizabeth Jobim. Nesse mesmo ano, foi inaugurado, com a exposição “Nas Trilhas do Tom”, o Instituto Antonio Carlos Jobim, presidido por Paulo Jobim e dirigido por Ana Lontra Jobim, Elizabeth Jobim e Wanda Mangia Klabin, tornando acessível a músicos e pesquisadores a obra e o acervo particular do compositor.
Em 2003, foram lançados o CD e o DVD “Jobim Sinfônico”, contendo suas peças orquestrais. O projeto foi idealizado e produzido por Mario Adnet e Paulo Jobim, registrando o espetáculo homônimo gravado em 2002, na Sala São Paulo (SP), com a Orquestra Sinfônica de São Paulo, sob a regência de Roberto Minczuk, assistente da Filarmônica de Nova York, e a participação de Milton Nascimento e 80 músicos.
Ainda em 2003, chegou às livrarias o “Cancioneiro Vinicius de Moraes: Orfeu” (Jobim Music), songbook do espetáculo “Orfeu da Conceição”, encenado em 1956 no Teatro Municipal, trazendo 14 partituras das canções compostas com Vinicius para o musical, além de desenhos de Carlos Leão e Carlos Scliar, cartazes, críticas, capas de discos, textos de Sérgio Augusto, Susana de Moraes, Paulo Jobim e Cacá Diégues, uma edição assinada por Maria Lúcia Rangel dos textos do poeta sobre a criação da peça e a correspondência mantida com Vinicius sobre a primeira adaptação da obra para o cinema, realizada por Marcel Camus, em 1959, com o título de “Orfeu negro”.
Estrada do Sol ensaio na casa de Tom
Em 2004, o crítico Ricardo Cravo Albin propôs à Associação Comercial do Rio de Janeiro que se promovesse junto ao Aeroporto Maestro Antônio Carlos Jobim um memorial a ele dedicado, por ocasião dos 10 anos de seu falecimento.
Entre os artistas estrangeiros que gravaram suas canções estão Frank Sinatra, Miles Davis, Stan Getz, Quincy Jones, Dizzie Gillespie, Charlie Byrd, Sara Vaughan, Clare Fischer, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Oscar Peterson, Joe Pass e Sting, entre outros.
Em 2004, foi lançado o CD “Antonio Carlos Jobim em Minas ao vivo Piano e Voz”, registro do recital apresentado pelo compositor, em 1981, no Palácio das Artes (BH).
No ano seguinte, “The Girl from Ipanema” histórica gravação de Astrud Gilberto, ao lado de João Gilberto, Stan Getz e do próprio compositor, realizada em 1963, foi escolhida como uma das 50 grandes obras musicais da Humanidade pela Biblioteca do Congresso Americano. Também em 2005, a Jobim Biscoito Fino relançou o álbum duplo “Tom Jobim Inédito”. O disco, gravado em 1987 para a Odebrecht, com produção de Jairo Severiano e Vera Alencar, teve distribuição comercial em tiragem limitada, no final de 1995.
Em 2006, foi lançado, também pela Jobim Biscoito Fino, o DVD “Tom Jobim ao vivo em Montreal”, registro do show gravado em 1986, no Festival Internacional de Jazz daquela cidade. Ao lado do compositor, os músicos Jaques Morelenbaum (violoncelo), Paulo Jobim (violão), Danilo Caymmi (flauta), Tião Neto (baixo) e Paulo Braga (bateria), e do vocal de Paula Morelenbaum, Maucha Adnet, Simone Caymmi, Ana Jobim e Elizabeth Jobim. O DVD traz ainda uma entrevista concedida pelo compositor em sua casa, no bairro do Jardim Botânico (RJ), em 1981, ao jornalista Roberto D’Ávila.
Em 2007, a gravadora Biscoito Fino lançou o CD “Tom Jobim ao Vivo em Montreal”, contendo o áudio do DVD homônimo, lançado no ano anterior. No repertório, suas canções “Água de beber”, “Chega de saudade”, “A felicidade” e “Garota de Ipanema”, todas com Vinicius de Moraes, “Samba de uma nota só” (c/ Newton Mendonça), “Two kites”, “Wave”, “Borzeguim”, “Falando de amor”, “Gabriela”, “Samba do avião” e “Waters of March”.
Em 2007 foi lançado o DVD “A casa do Tom – Mundo, Monde, Mondo”, filme de Ana Jobim que conta a história de amor do compositor com a música, a família e a natureza. Narrado pela própria Ana Jobim, o documentário inclui falas, fotos, filmes caseiros e filmes profissionais, poemas, uma longa entrevista e uma trilha sonora composta de 24 músicas.

Antônio Carlos Jobim é até hoje o nome mais respeitado, acatado e até venerado pelas novas gerações de músicos e compositores do Brasil. Embora com todo esse sucesso, Tom continuou afável e simples com as pessoas que o procuravam: sorriso franco, roupas e cabelos sempre descuidados, ele nunca escondeu sua paixão pela vida simples. E as coisas simples de que Tom se embebeu fizeram-no também um poeta, além do grande compositor que sempre foi. Seu último grande sucesso popular refletia a excelente poesia que também o habitou: são os versos de “Águas de março” para os quais Tom compôs uma de suas mais simples, despojadas e ao mesmo tempo mais adoráveis melodias.
(Ricardo Cravo Albin)
Fonte: Site Oficial
Dicionário Cravo Albin
Wikipédia Livre
Discografia Completa
Abaixo estão todos os links da entrevista de Antonio Carlos Jobim no Programa Roda Viva.
Início
2ª parte
3ª parte
4ª parte
5 ª parte
6 ª parte
7 ª parte
8 ª parte
9 ª parte
10 ª parte
11 ª parte
12 ª parte
13 ª parte
14 ª parte
15 ª parte
16 ª parte
17 ª parte
Final

