TOM JOBIM - Cantor, Maestro…
sábado, 18 de abril de 2009 por Maria Clara

Quando o especial com Sinatra foi ao ar, em novembro, Tom já havia computado outro feito histórico: sua primeira parceria com Chico Buarque, “Retrato em Branco e Preto”, que lá fora, em versão instrumental, já era conhecida com o título de “Zíngaro”. Outra façanha teria acrescentado ao seu currículo naquele ano se tivesse cedido aos insistentes apelos do cineasta Glauber Rocha para protagonizar o filme “Terra em Transe”.
Por uns tempos Chico Buarque seria o novo Vinícius de Tom. Juntos apareceram num show “Discomunal”, ao lado de Deodato, Baden Powell e outros, inaugurando uma temporada cujo ponto alto seria a inesperada vitória de “Sabiá” no III Festival Internacional da Canção.

Tom e Chico nem pretendiam participar do festival. Inscrever “Sabiá” foi a saída que Tom encontrou para livrar-se de um fardo, para ele, ainda mais pesado: ser membro do júri que apontaria as canções vencedoras. O triunfo da nova parceria de Tom e Chico teve o efeito de uma bomba e as feridas que abriu não cicatrizaram de um dia pro outro.
No festival seguinte, 1968, outra bomba. Irritados com os desmandos da censura, Vinícius, Chico, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Marcos Valle, Sérgio Ricardo, Paulinho da Viola, Rui Guerra, José Carlos Capinam, Baden Powell, Milton Nascimento, Egberto Gismonti e outros decidiram boicotar o evento. Tom adere ao boicote e entra para a lista negra da ditadura militar, que desde 1964 se perpetuava no poder e em 1970 mandou prendê-lo “para prestar depoimentos”.

A situação política do país se agravava e Tom encontrou sua válvula de escape na tela, compondo trilhas musicais para filmes brasileiros “A Casa Assassinada”, pela qual seria premiado no Festival de Cinema Brasileiro de Brasília em 1971 e estrangeiros “Os Aventureiros”, cujos temas escreveu numa luxuosa casa de três andares em Londres, alugada pela Paramount.

Uma das faixas da trilha de “Os Aventureiros”, uma valsa intitulada “Children’s Game”, seria incorporada ao LP “Stone Flower”, com letra em português e outro nome, “Chovendo na Roseira”(“Double Rainbow” para os americanos). De certo modo, estava oficialmente inaugurada a fase ecológica de Tom Jobim, que duraria mais do que os quatro anos (1972-1976) em que lançou “Águas de Março” e dois LPs com nomes de pássaros, “Matita Perê” e “Urubu”, recheados de canções inspiradas ou voltadas para a natureza, como “Sabiá”, “Tempo do Mar”, “Rancho nas Nuvens”, “Nuvens Douradas”, “Boto” e “Correnteza”.
Escrita no retiro de Poço Fundo e lançada de forma singular — num compacto encartado na primeira edição do “Disco de Bolso do Pasquim”— “Águas de Março” se transformaria num dos mais instantâneos e retumbantes sucessos do compositor. Na gravação original, feita na Semana Santa de 1972, seu autor apenas cantou, acompanhado de quatro flautistas (Bebeto, seu filho, Paulinho Jobim, Franklin e Paulo Guimarães), João Palma na percussão, Novelli no contrabaixo e Eduardo Ataíde no violão.
Só naquele ano, a nova obra-prima de Tom ganharia quase dez intérpretes, no Brasil e na América, nenhuma tão elogiada quanto a de Elis Regina em dueto com o autor, no LP “Elis & Tom”, gravado em Los Angeles e lançado em 1974. Chico Buarque chegou a dizer que às vezes achava “Águas de Março” o samba mais bonito do mundo. Ao ouvir sua versão em inglês, feita pelo próprio Tom, o crítico Leonard Feather não se conteve: “É uma das dez músicas mais bonitas do século”.
Recebeu, por três vezes, o prêmio da BMI - Broadcast Music Inc., como Great National Popularity, com “The Girl From Ipanema” (versão de “Garota de Ipanema”), em 1970, “Meditation” (versão de “Meditação”), em 1974, e “Desafinado”, em 1977.
No mesmo ano em que gravou o fundamental “Urubu”, 1976, com músicos da Sinfônica de Nova York e arranjos de Claus Ogerman, Tom conheceu Ana Beatriz Lontra, fotógrafa de 19 anos. Empolgou-se como um adolescente, cobriu-a de versos galantes, mas só começaram a namorar depois que Tom afinal separou-se de Thereza, em 1977.

Em pouco tempo, Ana se ligaria ao namorado também profissionalmente, integrando um coral familiar por ele montado para um Show no Canecão, que Aloysio de Oliveira produziu com mais três estrelas: Vinícius de Moraes (fazendo sua rentrée nos palcos cariocas após 15 anos de ausência), Toquinho e Miúcha (que acabara de gravar o LP “Miúcha & Antonio Carlos Jobim”). Ao lado de Ana, a filha de Tom, Beth, e três irmãs de Chico, Pii, Cristina e Bahia.
Tamanha foi a acolhida do público que o espetáculo, programado para ficar quatro semanas em cartaz, só saiu do Canecão oito meses depois, rumando para São Paulo, onde lotou o Anhembi durante um mês, e para o Uruguai, onde por várias noites agitou um Cassino de Mar del Plata. Sua carreira, contudo, se estenderia até Paris (dez apresentações no Olympia) e várias cidades da Itália e Suiça. Mas antes de abafar na Europa com o show de Aloysio, Tom e Ana passaram três meses de lua-de-mel no hotel Adams de Nova York, onde Tom encontrou tempo para acrescentar mais duas pérolas ao seu patrimônio musical, “Você Vai Ver” e “Falando de Amor”. Também foi naquele hotel que ele escreveu a letra em inglês de “Águas de Março”.
Antes de 1978 chegar ao fim, Tom e Ana alugam uma casa na rua Peri, no Jardim Botânico, onde irão morar os próximos seis anos. Nos quatro anos seguintes, Tom lançou o álbum duplo “Terra Brasilis”, reatou sua parceria com Chico Buarque, teve seu primeiro filho com Ana, João Francisco, dividiu um disco com Edu Lobo (“Tom & Edu, Edu & Tom”), ganhou o prêmio Shell de melhor compositor de 1982, na festa realizada na Sala Cecília Meireles (RJ) e começou a construir uma casa no alto do Jardim Botânico.

O começo da década de 80 foi marcado por homenagens à sua obra e à sua personalidade: além de um especial em quatro programas na TV Manchete, “A Música Segundo Tom Jobim”, dirigido pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos, em 1984, foi nomeado Conselheiro Cultural do Estado do Rio de Janeiro pelo antropólogo e vice-governador Darcy Ribeiro. E também por uma intensa atividade no cinema e na televisão.
A valsa “Luíza” foi tema da telenovela “Brilhante” e “Passarim”, uma das músicas que compôs para a minissérie “O Tempo e o Vento”. Para o filme de Arnaldo Jabor, “Eu Te Amo”, Tom fez uma valsa homônima, de parceria com Chico Buarque. Mas em “Gabriela” (1982), “Para Viver um Grande Amor” (1983) e “Fonte da Saudade” (1985) sua participação foi muito além do tema principal.
Outras trilhas sonoras para o cinema, contudo, tiveram de ser recusadas ou adiadas para que o maestro pudesse atender a um convite irrecusável: tocar acompanhado da ORF Sinfonietta de Viena, na Wienner Konzerthausgeselschaft. Receoso de um descompasso, pediu para levar o cantor e flautista Danilo Caymmi, o filho Paulo Jobim, o baixista Tião Neto e o baterista Paulo Braga. Dispensou os metais, substituindo-os por vozes femininas, as de Ana e Beth Jobim e Simone, mulher de Danilo.
Em 1984, foi convidado pelo diretor Marco Altberg para fazer a trilha sonora do filme “Fonte da Saudade”, baseado no romance “Trilogia do Assombro”, de Helena Jobim. Com esta trilha, ganhou o Kikito de Melhor Música no Festival de Gramado. Nesse mesmo ano, fez a trilha para o filme “O Tempo e o Vento”, baseado no romance homônimo de Érico Veríssimo. Ainda em 1984, formou a “Banda Nova“, grupo que o acompanharia em shows e gravações até o fim de sua vida. Ao lado de Paulo Jobim (violão), Danilo Caymmi (flauta e voz), Jaques Morelenbaum (violoncelo), Tião Neto (baixo), Paulo Braga (bateria) e (coro) Ana Jobim, Elizabeth Jobim, Paula Morelenbaum, Maucha Adnet e Simone Caymmi, realizou show no Carnegie Hall, em Nova York.

Em 1985, Tom voltou ao Carnegie Hall, onde cantou diante de 3 mil pessoas, abrindo uma longa temporada de shows, alguns no Brasil (Rio, São Paulo e Salvador), outros na Europa (nos festivais de Gasteiz e Montreux, em Madri), que se prolongaria, no ano seguinte, com uma apresentação no Avery Fisher Hall, de Nova York, com a Banda Nova e os violonistas Carlos Barbosa Lima e Sharon Isbin, outra no Teatro São Pedro, em Porto Alegre, seguidas de um turnê pela costa oeste dos Estados Unidos, Canadá e Japão.
Entre uma viagem e outra, ainda encontrou tempo para participar, ao lado de Astor Piazzola, de um especial de Caetano Veloso e Chico Buarque para a TV Globo, receber a comenda de Grand Commandeur des Arts et des Lettres do governo francês, entregue, pessoalmente, em Brasília, pelo ministro da Cultura da França, Jack Lang, pôr música em dois poemas de Fernando Pessoa, compor “Pato Preto” para um documentário norueguês (“Man at Play”) sobre brincadeiras de crianças em todo o mundo, terminar a música da minissérie da TV Globo, “Anos Dourados”, e iniciar as gravações do LP “Passarim”, pelo qual ganharia o seu primeiro disco de ouro.
1987 foi o ano em que Tom começou sexagenário e, como ele próprio gostava de dizer, pai-avô, pois em março nasceu Maria Luiza Helena, sua filha com Ana Jobim. Em homenagem aos seus 60 anos, a TVGlobo dedicou-lhe um especial, “Antônio, o Brasileiro”, gravado no Brasil e nos Estados Unidos, e a Companhia Brasileira de Projetos e Obras, do grupo Odebrecht, ofereceu de brinde natalino um álbum biográfico, escrito por Sérgio Cabral, acompanhado de um disco duplo, produzido pelo pesquisador Jairo Severiano, no qual Tom passava em revista alguns de seus clássicos, com novos arranjos. O livro seguinte seria uma produção doméstica: “Ensaio Poético”, com fotos de Ana Jobim, patrocinado pela IBM e lançado pela Record em 1988, pouco antes de chegar às livrarias uma coletânea de textos e poemas de Tom, editada pela Expressão e Cultura, “Jardim Botânico do Rio de Janeiro” e ilustrada com fotos de Zeca Araújo.

Fonte: Site Oficial
Dicionário Cravo Albin
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