TOM JOBIM - Maestro, Cantor…
quarta-feira, 15 de abril de 2009 por Maria Clara

O mais ocupado, sem dúvida, ele era. Ao longo de 1959, Tom começa a pensar numa nova sinfonia, participa de outro filme, “Pluft, o Fantasminha”, adaptado da peça infantil de Maria Clara Machado, para o qual compôs a trilha musical, e durante meses faria as honras de um programa semanal de entrevistas, “O Bom Tom”, na TV Paulista, que, dirigido por Carlos Thiré, alcançaria o segundo lugar em audiência na capital paulista.
A nova sinfonia entrara em sua vida em 1958. Como a primeira, dedicada ao Rio de Janeiro, também foi encomendada—no caso, pelo pianista Bené Nunes, a pedido do presidente Juscelino Kubitschek, que sonhava com um poema sinfônico em homenagem a Brasília, a nova capital do país, inaugurada em 21 de abril de 1961.
Acompanhado de Vinícius, que se incumbiria de escrever o recitativo da sinfonia, Tom viajou até o Planalto Central para sentir de perto o clima da região onde a Novacap estava sendo erguida. De lá voltou com os cinco movimentos de “Brasília, Sinfonia da Alvorada” na cabeça. Planejada para um espetáculo de luz e som, acabou tendo sua festiva execução pública cancelada, por falta de verba. Só em disco pôde ser ouvida durante algum tempo.
Apenas duas vezes ela seria apresentada diante de uma platéia: em 1966, pela TV Excelsior de São Paulo, e em 1986, na Praça dos Três Poderes, regida por Alceu Bocchino, com Radamés Gnatalli ao piano e Tom e Susana de Moraes lendo o recitativo de Vinícius.

Enquanto a capital se mudava para Brasília, João Gilberto lançou seu segundo LP, “O Amor, o Sorriso e a Flor”, com seis composições de Tom, três das quais em parceria com Newton Mendonça: “Meditação”, “Discussão” e o paradigmático “Samba de uma Nota Só”, que se transformaria numa espécie de hino da Bossa Nova.
Após o terceiro LP, simplesmente intitulado “João Gilberto”, com três músicas de Tom, entre as quais a inédita “Insensatez”, o cinema volta a seduzir o compositor, que compõe a trilha musical de “Porto das Caixas”, de Paulo César Saraceni, e participa como ator, ao lado de João Gilberto, do filme italiano rodado no Rio, “Copacabana Palace”, com Mylène Demongeot, para o qual também fez a trilha musical.

Ao palco Tom só retornaria em meados de 1962, quando o empresário Flávio Ramos convidou Aloysio de Oliveira para montar um pocket show na boate Au Bon Gourmet, que acabara de comprar em Copacabana. No memorável show, intitulado “Encontro” e estrelado por Tom, Vinícius (que pela primeira vez cantou em público), João Gilberto e o conjunto vocal Os Cariocas, foram lançados cinco dos maiores clássicos da Bossa Nova: “Só Danço Samba”, de Tom e Vinícius; “Samba do Avião”, de Tom; “Samba da Benção” e “O Astronauta”, de Baden e Vinícius; e, por fim, o maior sucesso da dupla Tom-Vinícius, “Garota de Ipanema”, que só sairia em disco no ano seguinte, conquistando de roldão duas dezenas de intérpretes, entre os quais o cantor Pery Ribeiro, o Tamba Trio, a cantora Claudette Soares e diversos grupos instrumentais, daqui e do exterior.
No mesmo mês em que estreou o show do Au Bon Gourmet, o saxofonista Stan Getz e o guitarrista Charlie Byrd gravaram o LP “Jazz Samba” , que permaneceria diversas semanas no Hit Parade. Numa das faixas, uma versão instrumental de “Desafinado”, que só naquele ano ganharia nos EUA uma dezena de intérpretes, vários deles jazzísticos, como Lalo Schifrin, Quincy Jones, Coleman Hawkins e Dizzy Gillespie.
Não dava mais para evitar o inevitável: dali em diante, a Bossa Nova faria da América a sua segunda pátria. E o melhor que os bossanovistas tinham a fazer era mostrar ao vivo para os gringos como era mesmo que se tocava aquele sambinha feito de uma nota só.
A apresentação oficial da Bossa Nova aos americanos teve como palco o Carnegie Hall de Nova York, num concerto promovido em 21 de novembro de 1962 pelo consulado brasileiro e Sidney Frey, dono da gravadora Audio Fidelity. A representação do Instituto Brasileiro do Café em Nova York assumiu as despesas de hospedagem dos artistas e a Varig dividiu com o Itamarati o custeio das passagens aéreas. Tom não queria ir e só aterrissou em Nova York no dia do show, cuja repercussão, em Nova York e no Brasil, ficou muito aquém das expectativas mais otimistas. O próprio Tom achou o espetáculo um primor de desorganização. Aloysio de Oliveira pensara num show pequeno, bonito e bem montado, apenas com Tom, João Gilberto, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos, Sérgio Mendes e Oscar Castro Neves. Mas Frey fez corpo mole e aceitou convidados e bicões em demasia.

Em Nova York, gravação do álbum “Stan Getz e João Gilberto”.
Da esquerda para a direita: Tião Neto, Tom Jobim, Stan Getz, João e Milton Banana.
Tom não foi o único a permanecer em Nova York depois do concerto. João Gilberto e Sérgio Ricardo também ficaram. Tom mandou buscar Thereza e com ela hospedou-se no hotel Diplomat até julho, quando voltaram para o Brasil de navio cargueiro. Doze dias após o show do Carnegie Hall , Tom apresentou-se no templo jazzístico nova-iorquino The Village Gate e, 48 horas mais tarde, no Listener’s Auditorium, em Washington, diante de duas mil pessoas, entre as quais o crítico de música do jornal “Washington Post”, que o cobriu de elogios. Apareceu em seguida num programa de TV com o saxofonista Gerry Mulligan.
Os convites eram muitos, mas dinheiro, que é bom, nada. Para defender melhor seus direitos, Tom criou, por insistência de Thereza, a Editora Corcovado Music. E foi à luta.
Para a “Verve” gravou seu primeiro disco americano, o instrumental “Antonio Carlos Jobim—The Composer of Desafinado Plays” , acompanhado de grande orquestra, e solou ao piano nos LPs “Jazz Samba Encore!” (com Stan Getz, Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo) e “Getz/Gilberto” (com Getz, Joâo Gilberto e Astrud Gilberto). Por intermédio de Aloysio de Oliveira, aproximou-se de Ray Gilbert, que, sabedor das restrições que Tom fazia às versões para o inglês que Norman Gimble, Gene Lees e a dupla Jon Hendricks/Jeff Cavanaugh haviam feito de algumas de suas músicas, ofereceu seus serviços como letrista — e editor. Nem as letras em inglês das músicas de Tom melhoraram de qualidade, escritas por Gilbert, nem ele ficou rico.

Quando o casal Jobim chegou de volta ao Rio, em meados de 1963, Aloysio já havia criado a Elenco, que Tom procurou ajudar de tudo quanto foi jeito. Depois de participar do LP “Bossa Nova York”, com Sérgio Mendes, Art Farmer, Phil Woods e Hubert Laws, gravado pela Elenco em Manhattan, aceitou de bom grado uma sugestão de Aloysio: um encontro com Dorival Caymmi e os filhos do compositor baiano, Danilo, Nana e Dori. “Caymmi Visita Tom” marcaria a estréia de Tom como cantor, em disco.
Em 1964, foi para Los Angeles encontrar-se com Ray Gilbert, que faria as versões de suas músicas para o inglês. Quando 64 chegou ao fim, Tom recebeu três prêmios Grammy: pela autoria de “Desafinado” e “Garota de Ipanema” e pelos arranjos de “Brazil’s Brilliant João Gilberto”.
Uma longa temporada na Costa Oeste dos EUA o esperava em 1965. Até shows em Lake Tahoe ele fez. Por três vezes deu o ar de sua graça no programa de TV do cantor Andy Williams, uma delas na companhia de Caymmi, cuja valsa “Das Rosas” Williams alçara recentemente às paradas de sucesso. Aproveitou a temporada para realizar um sonho de todo músico de sua geração, gravar um disco com Nelson Riddle, o arranjador favorito de Frank Sinatra. Apesar das qualidades de “The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim” —no qual “Surfboard” e “Bonita” (dedicada à atriz Candice Bergen) foram lançadas—, Tom continuou preferindo (ou sentindo muito mais afinidade com) Claus Ogerman, à cuja sombra faria outro disco, desta vez para a Warner, “A Certain Mr. Jobim” , que demoraria dez anos para ser lançado no Brasil.
Andy Williams & Antonio Carlos Jobim - Girl From Ipanema 1965
Enquanto tomava chope com amigos no mesmo bar celebrizado por “Garota de Ipanema”, Tom recebeu o mais surpreendente telefonema de sua vida. Do outro lado da linha, ninguém menos que Frank Sinatra. “The Voice” queria gravar um disco só com músicas de Tom, que topou na hora. Foi uma conversa curta. Quando se recuperou da surpresa, Tom lembrou-se da esnobada que um editor nova-iorquino lhe dera três anos antes, envolvendo indiretamente a figura de Sinatra.
Em janeiro de 1967, Tom hospedou-se no Sunset Marquis de Los Angeles para dar início ao trabalho, afinal adiado porque Sinatra refugiara-se em Barbados para esquecer mais uma desavença conjugal com Mia Farrow. Enquanto esperava, repassou todos os arranjos com Ogerman, compôs mais duas músicas “Wave” e “Triste”, e também quase morreu de tédio.
As gravações de “Albert Francis Sinatra & Antonio Carlos Jobim” começaram às 20h do dia 30, no Studio One da Warner Western Sound, em Sunset Strip. Por precaução, Sinatra gravou primeiro duas das três canções americanas incluídas no repertório, “Baubles, Bangles and Beads” e “I Concentrate on You”, com as quais só não tinha intimidade em ritmo de Bossa Nova. A primeira de Tom que ele encarou foi “Dindi”, seguida de “Change Partners”. A última faixa da noite foi “Inútil Paisagem”. Apesar do natural nervosismo do brasileiro, a sessão transcorreu num clima de extrema afabilidade. Nas duas noites seguintes não seria diferente.
A crítica americana elegeu o encontro de Sinatra e Jobim o álbum do ano. Nas vendas perdeu apenas para “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Um segundo disco com os dois seria gravado dois anos depois, com o título de “Sinatra & Company”, com arranjos de Eumir Deodato. Àquela altura, Tom e o cantor já haviam se tornado amigos. Quando dos preparativos de um especial sobre Sinatra, A Man and His Music, co-estrelado por Ella Fitzgerald, para a rede de televisão NBC, em setembro de 1967, Francis Albert não se esqueceu de convidar Antonio Carlos Jobim. Sinatra aliás, abriu o programa cantando “Corcovado” .

Fonte: Site oficial
Dicionário Cravo Albin
Wikipédia Livre
Discografia Completa

