ANOS 60 - RETROSPECTIVA
sábado, 2 de maio de 2009 por Maria Clara

A Década de 60 é um divisor de águas na música popular brasileira. Até ela, a música que e fazia no Brasil, à exceção do samba, de estrangeirice aguda (para aqueles que advogam que a música brasileira sofreu um processo de colonização a partir do rock, é bom lembrar que as composições feitas no Brasil até o final dos anos 50 eram basicamente assentadas nos boleros, guarâneas, fox - trotes e demais gêneros que empolgaram a geração Hollywood). E só sabia cantar quem tinha potência de voz e de pulmão.
A Bossa Nova foi o primeiro movimento a entrar em cena no final da Década de 50 para mostrar que cantar podia ser exatamente o contrário. Paralelamente a essa transformação proposta pela Bossa Nova, à música brasileira começou a receber os ventos das revoluções externas ao país,quando um novo comportamento, ditado pela juventude, passou a imperar. A partir daí, sexo e política misturam-se na quebra de antigos valores. O mundo passa por velozes e radicais mudanças. O Brasil entra num processo particular, ditado pelas influências externas e pelas suas próprias mudanças políticas e econômicas. Nada disso escapa à arte. A música popular é a que mais diretamente capta essas mudanças. E as reflete. Como resultado, um vigoroso processo de renovação musical instala-se no país, numa sucessão de significantes movimentos.
Esse processo, tão importante para a música e para a cultura brasileira, é cronologicamente analisado nesta retrospectiva.
(Reginaldo Ramos Moura – Diretor da Revista Violão & Guitarra - 1981)
1960 – generaliza-se a guerra do Vietnam: 25 pessoas morrem por dia;
- a União soviética coloca em órbita terrestre o Sputinik 5, levando dois cães a bordo;
- os EUA lançam o primeiro satélite meteorológico; liberado o uso da pílula anticoncepcional;
- é inaugurada a cidade de Brasília, nova capital do país, por Juscelino Kubitschek;
- “Jânio vem ai!”;
- a Editora Abril lança a revista Quatro Rodas;
- é criada em Bagda, Iraque, a OPEP;
- tem início o uso da informática a IBM lança o primeiro computador eletrônico para fins comerciais, embora ainda não de forma massificada;
-John F. Kennedy foi eleito presidente dos EUA;
Os anos 60 têm início para a música popular do Brasil prenunciando uma divisão que se estenderia até o final da década, quando os tropicalistas destruiriam a separação entre a música “Jovem” e a MPB.

Iniciava a década e alguns garotos já vinham fazendo a cabeça de uma parte da juventude desde 1958, pautados no rock&roll americano, através de versões singelas e apressadas dos sucessos internacionais. Celly Campello, seu irmão Tony Campello, Wilson Miranda, Sergio Murilo, Ronnie Cord, Demétrius, entre outros definiam uma faixa de público consumidor dentro do incipiente mercado fonográfico de então.
Tempo para Amar - 1959
Embora essa reposta brasileira aos apelos do rock americano não tome maior espaço nos estudos históricos sobre a música popular brasileira, é, sem dúvida, Celly e sua turma que abrem espaço para o movimento liderado por Roberto Carlos, poucos anos depois.
Muitos dos componentes da turma de “brotos” da primeira manifestação do rock brasileiro estariam presentes nos bastidores da Jovem Guarda: Tony Campello e Wilson Miranda produziram discos de Deny e Dino, de Os Incríveis e, junto com Demétrius (“Ritmo da Chuva”), fariam algumas intervenções nas matinês dominicais do programa de Roberto Carlos.

A turma da cuba libre e do hi-fi instaurava, ainda que em pequena escala, a indústria da música jovem, que extrapolaria o universo musical para interferir no comportamento juvenil. Uma interferência tão estéril em termos de sociedade brasileira quanto duvidosa: o modo de ser rebelde e violento importado de maneira estereotipada dos filmes de James Dean ou daquilo que se sabia da juventude americana, resultaria uma caricatura. Os meninos brasileiros brincavam de mocinho e bandido no quintal norte-americano.
Pra os play-boys, Ronnie Cord “subia a Rua Augusta a 120 por hora”, enquanto os brotinhos identificavam sua ingenuidade nas canções de Celly que usava “lacinhos cor de rosa nos sapatos”, sonhando beijar o namorado quando o “trem passasse no túnel do amor”.
Os centros urbanos do país escandalizavam-se com as notícias de estupros e violência praticados pela juventude transviada.
DO OUTRO LADO DA BOSSA NOVA
Há muita controvérsia sobre a origem da Bossa Nova. A expressão que designa um jeito novo de fazer alguma coisa, já era usada entre os músicos profissionais desde a Década de 40.
É, entretanto, no final dos anos 50 que um grupo de rapazes e moças passa a manter encontros na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde tocavam violão e cantavam músicas de determinados compositores. Dentro eles, Carlos Lyra e Roberto Menescal fundariam uma academia de violão que ajudava a divulgar composições do grupo e o caráter intimista e jazzístico de sua música.

Em 1958, João Gilberto, o violonista que já atuara em um disco de Elizeth Cardoso (“Canção do Amor Demais”), grava seu primeiro compacto (“Chega de Saudades/Bim-Bom”) empregando uma nova forma rítmica ao seu instrumento.
Esse primeiro trabalho individual de João Gilberto passaria a identificar o movimento, que aglutinou poetas e músicos em torno da nova concepção musical, a qual passava a impor mudanças radicais em nível de arranjo e letras.
João Gilberto
A batida característica do violão de João Gilberto, as novas estruturas utilizadas por Tom Jobim, que propunha harmonia dissonante e inovadora; a poesia de Vinícius de Moraes, que rompia com a separação entre poesia e canção popular; e, principalmente nova forma de interpretação, onde o canto abandonava as performances operísticas, a voz volumosa e empostada, para cantar com precisão e economia (“Desafinado”), passavam a identificar a Bossa Nova.
A partir daí, novos discos foram editados. Sylvia Teles, Alaíde Costa, Baden Powell, Nara Leão, os irmãos Castro Neves, Luis Eça, Chico Feitosa, entre outros, veriam a Bossa Nova alcançar repercussão nacional e, através do festival realizado nos Estados Unidos, em novembro de 1962, atingir o mercado internacional.
Silvia Telles
O I Festival de Bossa Nova, no Carnegie Hall chamou a atenção de músicos de jazz norte-americanos e propiciou o lançamento de discos em vários países.
A partir dessa época, o sucesso na Bossa Nova dá origem a certo desgaste do movimento, que passa a perder suas características originais. Céu-mar-azul-garotas, temas sobre os quais se haviam debruçados os criadores da Bossa Nova, passariam a ser substituídos por novas informações de outros compositores que viriam incorporar elementos da cultura regional e denúncia social e política.
À parte o sucesso de Ronnie Cord com “Rua Augusta”, gravada em 1963, os primeiros rockeiros brasileiros já não convenciam, coincidindo com a exaustão a que chegara o rock de Elvis Presley nos Estados Unidos
Ronnie Cord – Rua Augusta 1963
Fonte: Revista Violão e Guitarra Especial - nº 37 - 1981

